Uma entrevista com a Professora Doutora Ana Neves
A Ciência Cidadã, ou “Citizen Science”, tem-se revelado uma abordagem inovadora e inclusiva no campo da investigação científica, permitindo a participação ativa de não-cientistas em processos de pesquisa. Este método representa um benefício mútuo, tanto para a comunidade científica, que ganha acesso a dados valiosos e a novas perspectivas, quanto para os participantes, que se envolvem ativamente no avanço do conhecimento científico.
Um dos exemplos mais elucidativos do impacto da Ciência Cidadã na investigação é o projeto de monitorização das espécies da zona entre-marés nas praias, como a Praia das Avencas, em Cascais. Este processo, tradicionalmente moroso e dispendioso, torna-se mais acessível e sustentável através da colaboração de cidadãos. Utilizando tecnologias simples, como smartphones equipados com GPS e aplicativos dedicados (como o iNaturalist), os cidadãos podem fotografar e registrar observações de espécies como as lapas, contribuindo para bases de dados globais. A foto de uma lapa, por exemplo, pode ser analisada e validada por outros utilizadores e especialistas, proporcionando uma rica camada de dados confiáveis para a pesquisa científica.
A estrutura da Ciência Cidadã permite diferentes níveis de envolvimento. No nível mais básico, os participantes coletam dados; num segundo nível, eles também podem interpretar esses dados e gerar relatórios; e no nível mais avançado, as comunidades podem iniciar suas próprias questões de pesquisa e projetos, em colaboração com instituições acadêmicas.
No contexto do meu doutoramento, foi desenvolvido um projeto envolvendo escolas de norte a sul de Portugal, focado na sensibilização e coleta de dados sobre a biodiversidade marinha e o impacto das alterações climáticas. Este projeto não só fortaleceu a ligação entre as universidades e as escolas, como também promoveu o desenvolvimento de competências críticas e científicas nos alunos.
É evidente que a Ciência Cidadã tem o potencial de transformar a relação entre ciência e sociedade, democratizando o acesso ao conhecimento científico e fomentando uma nova geração de cientistas amadores informados e engajados. Este modelo não apenas acelera a coleta de dados e reduz custos, como também fortalece as capacidades analíticas e críticas dos participantes, sendo um exemplo claro de como a colaboração pode enriquecer tanto a ciência quanto a educação.